Raphaella Gonçalves

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Livro: “Ensaios sobre o Amor e a Solidão” de Flávio Gikovate.

Em Livros, setembro 26, 2009 às 8:20 pm

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Neste livro, o autor nos apresenta novas definições de amor, do que chamamos amor-próprio, de narcisismo e, de forma clara e objetiva, propõe reflexões indispensáveis para quem deseja conhecer melhor sua subjetividade. Ele nos fala da separação entre amor e sexo e das consequências dessa não separação que não é feita pela psicanálise. Põe de lado o caráter ”sagrado” do amor romântico e elucida as necessidades e a incompletude que sentimos como o fator potencial para a busca da fusão romântica, em que o parceiro serve como paliativo para nossas necessidades, e nos mostra que, dessa forma, poucos são as relações interpessoais, ou seja, aquelas em que o outro é visto como um ser inteiro, individual, com necessidades e vida próprias, em que não apenas nossos interesses pessoais e vaidade se sobressaem mascarados nos ”eu te amo” da vida e até mesmo em atos generosos de muitas pessoas que com tais atos tornam seus próximos dependentes de seus favores, matendo-os presos a ela. Enxergando o amor como o sentimento de incompletude que nos faz buscar no outro uma possível solução para nossas necessidades , seria incoerente e sem sentido amar a si mesmo, e seria nossa sexualidade o que nos ”atrai” para nós mesmos, não o fenômeno amoroso.

Trata o sexo, estímulo sexual e sexualidade como um fenômeno exclusivamente pessoal e determinante para a construção de nossa imagem como seres individuais e inteiros, quando por meio da auto excitação nos percebemos como fonte de prazer nos primeiros anos de vida, nos desligando mais do que antes era nossa única fonte de prazer: a mãe. Essa excitação, com o passar do tempo não fica apenas ligada ao ato sexual e às zonas erógenas, mas se torna difusa e pode ser sentida a partir de realizações pessoais diversas.

O sentimento de incompletude e por outro lado nosso reconhecimento como individuos e não como uma fração, constitue um conflito interno, em que nossas lembranças do aconchego de nossas mães nos faz querer buscar no outro a completude ao mesmo tempo que gostamos de nossa individualide e buscar no outro a completude significa se reconhecer como incompleto, uma ofensa a nossa vaidade.

Para ele, assim como o amor é o paliativo para nossa incompletude, a vaidade é o remédio para nossa insignificância. Contudo, classifica a amizade e o +amor como relações efetivamente interpessoais, em que dois inteiros se unem numa relação em que ambos têm uma boa individuação, reconhecendo que ninguém poderá suprir esse sentimento de incompletude e que buscar no desenvolvimento pessoal aprendendo a conviver com a inevitável instabilidade dos elos, é o melhor caminho para a realização.

Trata o ciúme e seus fatores determinantes variados, que podem estar associados à questões puramente sexuais, afetivas, ou associados a sentimentos de caráter possessivo, inveja, etc.

“Por termos algumas dúvidas acerca de nosso efetivo valor como seres humanos, sempre podemos nos sentir ameaçados pelo risco de perda das pessoas que amamos. Tememos que elas encontrem, a qualquer momento, outro parceiro mais interessante e gratificante do que nós. (…)

O amor depende da admiração, de modo que uma queda na nota que recebemos provocará uma alteração negativa no sentimento do amado. Ou seja, a situação amorosa é vivida com uma instabilidade absoluta; os sentimentos poderão se alterar de uma hora para a outra. Essa é a razão pela qual aqueles que se amam gostam de ouvir várias vezes por dia a expressão ”eu te amo”. O ”eu te amo” de ontem não vale para hoje.

Esse é um pequeno esboço sobre algumas das questões abordadas no livro  que considerei mais significativas e um bom ponto de partida para se pensar as relações, pois o amor, e os sentimentos que o envolve ou mesmo que o desperta, é um conceito (ou seria um sentimento? ou uma emoção?) para ser realmente pensado e muito discutido por se tratar de um assunto que está longe de estar esgotado de explicações, fator que o próprio autor reconhece quando entitula seu livro de “ensaios”.

Recomendo a leitura.

Abraços!

Sobre ser ou sentir-se ofendido por alguém…

Em Pensamentos, setembro 23, 2009 às 10:09 pm

“Uma das formas de magoar alguém consiste em boicotar sua auto-estima com comparações e frases sarcásticas e tiranas. Ele vai se entristecendo, silenciosamente a cada aquiescência, tecendo a teia em que ele mesmo se perderá.

Noutras vezes, ele grita, despeja os dejetos de sua alma estropiada, em ofensas que buscam responder às grosserias que o agridem.

Assim também ele se perde. Perde-se de si mesmo.”

(Texto escrito originalmente por Alena Cairo em: 12 Março, 2009, escrito aqui com algumas modificações feitas por mim.)

Por mais que se fale em estima por si mesmo, não acredito que esta anule as fragilidades, os sentimentos e as inseguranças em relação a nós mesmos e às outras pessoas que adquirimos ao longo de nossas vivências. As experiências nos ensinam a lidar melhor com as adversidades e podem nos tornas menos vulneráveis à emoções ruins, mas a fragilidade, enquanto resultado de nossa condição de seres finitos, sociais e carentes de conhecimento sobre nossa psique, de uma forma ou outra existirá.

Para mim, os indivíduos menos honestos consigo e com os outros são os que se dizem invulneráveis à ofensas e isentos de “sentimentalismos“. Penso que o discurso dos que assim se classificam não passa de mera sublimação. Até que ponto um ser humano consegue verdadeiramente lidar com o isolamento e a renúncia a qualquer tipo de afetividade e interferência da ação de outros em sua vidas?

“Eu gostaria muito de ter o direito, eu também, de ser simples e muito fraca” (Simone de Beauvoir)


“O veneno se refugia no espelho do armário.”

Em Fimes e vídeos, setembro 5, 2009 às 3:49 pm

Notas de um observador:

Existem milhões de insetos almáticos.
Alguns rastejam, outros poucos correm.
A maioria prefere não se mexer.
Grandes e pequenos.
Redondos e triangulares,
de qualquer forma são todos quadrados.
Ovários, oriundos de variadas raízes radicais.
Ramificações da célula rainha.
Desprovidos de asas,
não voam nem nadam.
Possuem vida, mas não sabem.
Duvidam do corpo,
queimam seus filmes e suas floras.
Para eles, tudo é capaz de ser impossível.
Alimentam-se de nós, nossa paz e ciência.
Regurgitam assuntos e sintomas.
Avoam e bebericam sobre as fezes.
Descansam sobre a carniça,
repousam-se no lodo,
lactobacilos vomitados sonhando espermatozóides que não são.
Assim são os insetos interiores.

A futilidade encarrega-se de maestra-los.
São inóspitos, nocivos, poluentes.
Abusam da própria miséria intelectual,
das mazelas vizinhas, do câncer e da raiva alheia.
O veneno se refugia no espelho do armário.
Antes do sono, o beijo de boa noite.
Antes da insônia, a benção.

Arriscam a partilha do tecido que nunca se dissipa.
A família.
São soníferos, chagas sem curas.
Não reproduzem, são inférteis, infiéis, in(f)vertebrados.
Arrancam as cabeças de suas fêmeas,
Cortam os troncos,
Urinam nos rios e nas somas dos desagravos, greves e desapegos.
Esquecem-se de si.
Pontuam-se

A cria que se crie, a dona que se dane.
Os insetos interiores proliferam-se assim:
Na morte e na merda.

Seus sintomas?
Um calor gélido e ansiado na boca do estômago.

Uma sensação de: o que é mesmo que se passa?
Um certo estado de humilhação conformada o que parece bem vindo e quisto.
É mais fácil aturar a tristeza generalizada
Que romper com as correntes de preguiça e mal dizer.
Silenciam-se no holocausto da subserviência
O organismo não se anima mais.

E assim, animais ou menos assim,
Descompromissados com o próprio rumo.
Desprovidos de caráter e coragem,
Desatentos ao próprio tesouro… caem.
Desacordam todos os dias,
não mensuram suas perdas e imposturas.
Não almejam, não alma, já não mais amor.
Assim são os insetos interiores.

Composição:  Fernando Anitelli

Vídeo feito por: http://www.youtube.com/user/EllaGovegan

“1,99 – Um Supermercado que vende palavras”

Em Fimes e vídeos, setembro 5, 2009 às 2:56 pm

Pensando sobre a cultura de consumo e sobre as críticas que se voltam sobre tal, me deparo com suas consequências que para além da miséria que assola a tantos, causa o que me parece o pior dos males: o distanciamento e a alienação em torno de si mesmo. Qua talvez nem assombre tanta gente… são realmente poucas as pessoas que se dão ao trabalho de pensar e quesionar sobre si mesmas e suas relações.  Até pensam, mas raramente com referenciais que ponham a prova as normas aprendidas socialmente. A maioria acredita que é porque “deus quis assim”, e vivem felizes e conformadas, delegando tudo a tal abstração.

Com a trilha sonora do fantástico compositor Wim Mertens, cujas músicas me emocionam muito, o filme brasileiro “1,99 – Um Supermercado que vende palavras”  retrata de uma forma fantástica a nossa relação com o consumo, que é estritamente ligada com a busca de sentimentos, de sensações e de afirmações que nos seduzem, mas que são vazias e construídas sobre nada, afinal, se não nos estimamos pelo que fazemos de nós mesmos, na falta de um produto nada somos, nada nos resta de nós, por isso precisamos tanto ter para nos sentirmos, para sermos.

Tal assunto para mim é extremamente complexo e qualquer reflexão que tenho sobre tal, por mais que envolva inconformismo, me obriga a reconhecer que nada sei sobre a sociedade e sobre os seres humanos. Afinal a história parece se repetir, mudando apenas a estética e o nome: idade média, contemporânea… suas essências são iguais. Não seria “isso” mesmo o homem?

Não arrisco sequer um palpite se a forma como construímos nossas relações mudará um dia de fato e não apenas aparentemente. Na busca de entender minhas angústias, me é indispensável tentar entender o meio que me constituiu e as referências que internalizei que podem ser o fundamento de minhas preocupações. Mas ao mesmo tempo, quanto mais eu pareço entender o funcionamento da sociedade menos motivação eu tenho para atuar sobre ela. O mundo tem jeito ou eu que estou errada por não conseguir me adaptar a certas coisas?

O que é o ser humano?

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