
O livro Escuta, Zé Ninguém! de Wilhelm Reich, traz questões acerca de nossa sociedade, de cada um de nós, de nossos líderes e de todo funcionamento pelo qual regemos nossa vida e a de nossos semelhantes. Um modo de viver que nos conduz ao vazio, à destruição. Fala em ”prisão de ventre mental” nos mostrando quão medíocres nós somos, pelas nossas ações que são fundamentadas sobretudo pelo medo que temos de ouvir nossa voz interior, de pensar sobre nós mesmos por não saber lidar com o incômodo das sensações que o refletir pode trazer, já que pode nos mostrar que estamos errando. Vivemos nos escondendo de nossas fraquezas e nos constituindo de um vazio que permeia todo discurso de patriotismo, de dogmatismos religiosos e de ”fórmulas” para a felicidade. Ideais sempre insatisfatórios, que nos trazem alegrias efêmeras e nos causam dependência, pois estão fora de nós, sejam ídolos, bens de consumo, dogmatismos que tentam abolir sentimentos e comportamentos próprios do ser humano simplesmente por preferirmos a ilusão à verdade, pois ”somos exatamente aquilo que queremos eliminar nos que tratamos como inferiores”. Falamos em amor, em verdade, em superioridade e inferioridade, falamos de coisas que nem sabemos o que são. Nos tornamos, assim, intolerantes e violentos, sem capacidade de conviver com as diferenças e de questionar nossos valores, matando muitos pensadores importantes por discordarem de nós, muitas vezes nos mostrando a verdade. Contudo, assim que temos a comprovação da sabedoria de alguns deles, os aclamamos, usufruindo do que nunca ajudamos a construir mas que, pelo contrário, quisemos impedir de se realizar.
”Idolatramos deuses inacessíveis, não confiamos em homens simples. Outros grandes zé-ninguéns assumem postos altos derivados dos prestígios dos grandes homens”.
Ignoramos as pessoas que não têm graduação, que não escrevem nos jornais pois não acreditamos em nós mesmos, então não acreditamos que nosso próximo seja capaz de desenvolver algo. Deixamos que líderes que não nos respeitam, que mentem e nos convencem a matar e a excluir com discursos de que somos superiores e que as pessoas diferentes de nós são hostis, governar nossas vidas, nos explorando a partir de nossas fraquezas que eles conhecem bem, enquanto nós mesmos não as conhecemos. Eles administram nossos bens de forma corrupta e usam ”máscaras” que recalcam suas ganancias e preconceitos, e escondem sua semelhança com os zé-ninguéns pequenos, os homens comuns, pois não têm em si sentimentos de bondade para com os diferentes ou menos próximos, têm medo de olhar para si e se ver igual a todos, inferiorizando os demais na tentativa de sentir-se melhor.
”Você insiste na sua identidade porque despreza a si mesmo, a origem comum sua e de seus semelhantes”
Vivemos à espera de grandes líderes, correndo atrás da felicidade, esquecendo que a felicidade não é uma fórmula que tem que ser feita para ser consumida, ela precisa ser construída e preservada. Mas nós não aprendemos isso, pois nunca tivemos a oportunidade. Fomos rodeados de desvelos vazios e doentios… é assim que nossas relações são construídas.
Um exemplo que o livro traz é o de professoras que não satisfeitas com sua aparência e por isso nunca amadas, tratam os sentimentos de amor saudáveis nas crianças como sintomas de doença, e fala também dos pais que deixam seus filhos nas mãos de tais pessoas. Isso ressaltou em mim o dever que tenho em me conhecer para poder exercer com dignidade a profissão que escolhi, para não atribuir valores negativos à ação das outras pessoas partir de meus próprios valores.
”Para poder lidar corretamente com a sexualidade da criança, é preciso que a pessoa conheça por experiência própria o que é o amor.”
Entretanto, Reich tem uma visão otimista do futuro, afirmando que as gerações futuras irão superar tais limitações.
Tomando como base à elucidação das questões acima citadas, Reich fala principalmente pela sua experiência enquanto pesquisador da vida e do comportamento humano, que foi marcada por repressões bruscas a suas teorias que contrariavam a sociedade autoritária e ortodoxa.